Houve um tempo em que assistir a um filme não era um gesto comum que começava no instante em que se apertava um botão. Principalmente nas noites de verão, quando as calçadas de pedra devolviam lentamente o calor acumulado ao longo do dia, a luz da televisão e o som das vozes escapavam das janelas abertas dos apartamentos para a rua. Reunir a família na sala, arrumar as almofadas, preparar a mesa de centro com copos de refrigerante e pratos de sementes torradas, abrir com cuidado a caixa da fita de vídeo, tudo isso fazia parte de um ritual de preparação. A expectativa silenciosa já tomava conta da casa antes mesmo de o filme começar. Colocar a fita no videocassete, ouvir o som firme da tampa se fechando e esperar em conjunto os poucos segundos até a imagem surgir mostrava como a tecnologia podia dar um sentido cerimonial à vida cotidiana.
Do ponto de vista do legado tecnológico, o videocassete não era apenas um aparelho que transmitia imagens, mas um instrumento para compartilhar o tempo em família. A televisão já existia na casa; o que o videocassete trazia era uma noite escolhida, uma história aguardada e uma convivência planejada. Conversava-se sobre qual fita seria vista, observavam-se demoradamente as fotos da capa, lia-se às vezes a etiqueta escrita à mão de uma fita emprestada do vizinho, e conferia-se se ela tinha sido rebobinada. Apertar um botão não era um gesto invisível como hoje, porque o aparelho respondia fisicamente. A fita sendo puxada para dentro, o breve zumbido mecânico, o azul vazio da tela e depois a imagem aparecendo aos poucos eram formas concretas de a tecnologia se anunciar dentro de casa. As crianças olhavam esse momento com fascínio, enquanto os adultos ocupavam seus lugares com a seriedade discreta que aquela pequena preparação pedia.
Essa pequena cerimônia também pertencia ao bairro e à estação. Como as janelas ficavam abertas nas noites quentes, o que se via na sala nunca se separava completamente da vida lá fora. Os últimos gritos das crianças jogando bola na rua de pedra, o som das cascas caindo no prato, o sino distante do vendedor de sorvete ou um cumprimento rápido vindo da varanda ao lado entravam na noite de filme. Assim, usar um videocassete se transformava num ritual ligado não apenas à família, mas também à própria rua. A tecnologia, ali, não isolava; reunia pessoas no mesmo cômodo. Quem ficaria com o controle remoto, em que ponto o filme seria pausado e como parecia luxuoso assistir sem interrupções comerciais tornavam-se detalhes finos da memória doméstica.
Hoje, olhando para trás, entende-se que o valor cerimonial do videocassete vinha também de uma certa escassez. Quando nem tudo estava disponível a qualquer instante, assistir exigia mais preparo, mais atenção e um senso maior de partilha. Rebobinar a fita, ouvir um chiado na imagem ou perceber uma leve falha na gravação não arruinava a noite; tudo isso fazia parte dela. Ninguém esperava perfeição. Pelo contrário, essas pequenas falhas mostravam o rosto domesticado da tecnologia. É por isso que a silenciosa excitação das famílias reunidas na sala continua inesquecível: lembra-se não só do filme, mas da ordem construída antes que ele começasse. Misturada a uma noite silenciosa de verão ao longo das calçadas de pedra, essa imagem explica por que assistir, na antiga vida urbana, não era um ato solitário, mas uma cerimônia vivida em conjunto.
Por que Usar um Videocassete Acompanhado da Ansiosa Quietude das Famílias Reunidas na Sala Era por Si Só uma Cerimônia, Misturando-Se a uma Noite de Verão Silenciosa Ao Longo das Calçadas de Pedra

Eski Pano