Houve um tempo em que o primeiro cheiro vindo da cozinha quando se chegava da escola podia definir a forma de viver o resto do dia. Se havia sopa de tarhana fervendo, o ar da casa imediatamente ganhava uma suavidade diferente. Esse cheiro quente que saía da cozinha e alcançava o corredor dizia “você chegou em casa” antes mesmo de o casaco ser tirado ou a mochila ser colocada no chão. A primeira colher que alcançava o prato era, muitas vezes, sinal não apenas de fome, mas da volta do corpo e da mente da criança ao ambiente da casa depois de um dia inteiro fora. A profundidade ácida, iogurtada e tomatada da tarhana carregava mais do que uma refeição. Ela falava com a voz, a paciência e o caráter particular da cozinha doméstica.
Na memória do paladar, a sopa de tarhana talvez seja um dos exemplos mais complexos da cultura culinária tradicional. Isso porque tarhana não é apenas um prato preparado na hora; é o resultado de um trabalho anterior, que foi misturado, seco, guardado e protegido com conhecimento da estação. Preparada no verão, espalhada para secar ao sol e depois esfarelada para potes ou sacos de pano, a tarhana volta à mesa quando chegam o inverno e o período escolar. Nesse sentido, pertence menos a uma receita do que ao calendário da família. Cada casa tem uma tarhana um pouco diferente: algumas são mais ácidas, outras levam mais hortelã, outras ficam mais espessas. É exatamente aí que o caráter da cozinha da casa aparece. A mesma sopa fala com um tom diferente em cada lar.
O motivo de a primeira colher depois da escola permanecer tão viva na memória é que a sopa oferece não só sabor, mas também sensação de ordem. Quando a criança traz para dentro de casa o cansaço das aulas, o barulho do dia, a umidade do pátio chuvoso ou o frio do corredor, a sopa que a espera sobre a mesa recolhe de volta os pedaços espalhados do dia. O vapor embaça levemente os óculos, ouve-se o toque da colher no prato e, às vezes, vêm junto torradas; em outras ocasiões, um fio de manteiga com pimenta é colocado por cima. O som da tampa da panela, a mão da mãe ou da avó junto ao fogão, a toalha da mesa e o calor da sopa trabalham em conjunto. Por isso a primeira colher coloca no lugar não apenas o corpo, mas também o espírito.
Ao contar o caráter da cozinha doméstica, a sopa de tarhana também revela a força da discrição. Ela não exige grandes apresentações. Um prato fundo, uma consistência bem ajustada e o fato de chegar à mesa na hora certa quase sempre bastam. No entanto, dentro dessa simplicidade está escondido o ajuste da mão da casa. A medida da água, o tom do molho, a presença do alho, a escolha de colocar ou não hortelã e se ela vem acompanhada de pão ou picles revelam a personalidade da cozinha. Em algumas casas a tarhana é tomada rapidamente antes do dever de casa; em outras, uma pequena conversa se forma em torno do prato. Assim, a mesma sopa mostra caráter não apenas no sabor, mas na maneira como o tempo doméstico se organiza ao redor dela.
Talvez seja por isso que a sopa de tarhana se instale na memória infantil com a primeira colher. Porque essa colher levanta algo muito maior do que alimento: a sensação de segurança. Não importa quão cansativo tenha sido o dia lá fora, o fato de existir uma panela fervendo pensando na sua hora de chegada é, para uma criança, uma forma de cuidado impossível de esquecer. Sopas prontas, receitas rápidas e rotinas cheias podem ter tornado esse sentimento mais raro hoje. Mesmo assim, em muitas casas a tarhana continua viva não apenas como uma sopa nutritiva, mas como uma linguagem antiga pela qual a cozinha conta, no mesmo prato, seu caráter, seu saber das estações e sua ternura familiar.
A Sopa de Tarhana Lembrada Pela Primeira Colher que Alcança o Prato na Volta da Escola: Como Ela Conta o Caráter da Cozinha da Casa

Eski Pano