Houve um tempo em que um dos momentos mais esperados das noites de Ramadã era ouvir os passos que traziam a pide até a porta. O iftar estava perto, a sopa recebia a última mexida, os pratos já estavam postos e os copos, cheios de água. Quando a pide de Ramadã saía do forno e entrava em casa, não era apenas pão chegando à mesa; outro clima entrava junto. O cheiro tostado do gergelim, o vapor da massa quente e o ar levemente defumado do forno de pedra se espalhavam do corredor até a sala. Mesmo no langor das férias, esse instante despertava todos ao mesmo tempo. O cheiro da pide anunciava não só a fome, mas a proximidade do encontro.
Pela perspectiva da memória do paladar, a força da pide de Ramadã começa pelo aroma antes mesmo do sabor. Na antiga vida urbana, o vínculo entre a padaria e a casa era muito forte; as pessoas sabiam a que hora as fornadas saíam, qual padaria fazia a pide mais fina ou mais alta, e onde o gergelim era espalhado com mais generosidade. A fila diante do forno antes do iftar quase se transformava num encontro diário do bairro. A pide levada para casa era o último elo que trazia esse movimento de fora para dentro. Muitas vezes as crianças queriam arrancar um pedaço antes de todos se sentarem, enquanto os mais velhos pediam que se esperasse o chamado da oração. A razão de esse cheiro ser lembrado com tanta força é que ele agia junto da expectativa.
O fato de esse aroma encher a casa inteira também tem relação com o modo de vida das casas antigas. As portas não ficavam totalmente fechadas, os sons e os cheiros circulavam livremente entre a cozinha e a sala, e a preparação do iftar se espalhava por cada canto. De um lado se arrumavam as tâmaras, de outro o gullac descansava, em outro ponto a água do chá esperava, e o calor da pide reunia toda essa ordem doméstica num centro único. Quando o pão de Ramadã era colocado na mesa, os membros da família se aproximavam não só da mesma refeição, mas também do mesmo cheiro. Por isso a lembrança passa de boca em boca: ainda que pratos diferentes fossem preparados em cada casa, o aroma da pide criava uma linguagem comum do Ramadã.
Também é significativo que esse momento continuasse especial no langor do tempo de férias. Nos Ramadãs de verão os dias podiam ser longos, o corpo mais pesado e as ruas mais silenciosas, mas o pão vindo do forno dissipava de imediato essa lentidão. O calor que deixava o saco de papel levemente engordurado no caminho de volta, o vapor que subia quando ele era posto sobre a mesa e a maciez escondida no primeiro pedaço rasgado distinguiam o iftar de uma refeição qualquer. Mandar um pedaço para o vizinho, comer o que sobrava no sahur ou lembrar de propósito daquele pão no dia seguinte reforçava seu lugar na mesa. Por isso, o que fica na memória não é apenas o gosto, mas a partilha construída ao redor dele.
Hoje muitas coisas são preparadas mais depressa, os aromas se dispersam mais rápido e as refeições podem durar menos. Ainda assim, se a primeira coisa que muitas pessoas pensam quando se fala em pide de Ramadã é o cheiro, isso acontece porque ela ocupa um lugar profundo na memória do paladar. A pide recém-saída do forno reunia a família em torno da mesma mesa, da mesma expectativa e da mesma alegria. Por isso aquelas noites em que a casa inteira se enchia de um único aroma não são apenas nostálgicas; elas também são testemunhas vivas do tempo compartilhado, da padaria do bairro e da etiqueta do Ramadã. A lembrança passada de boca em boca vive exatamente aí.
Quando a Pide de Ramadã Saída do Forno Chegava À Mesa, por que a Casa Inteira Se Enchia do Mesmo Cheiro, Como uma Lembrança Passada de Boca em Boca no Langor das Férias

Eski Pano