Houve um tempo em que a estação mais aguardada de uma cidade não era marcada no calendário apenas como primavera ou verão, mas como os dias em que a feira seria montada. Antes mesmo de os cartazes ocuparem completamente os muros, antes de os caminhões aparecerem em volta do terreno, as crianças do bairro já falavam sobre qual brinquedo chegaria, qual pavilhão brilharia mais e em qual barraca se venderiam doces coloridos. O parque de feira não era apenas um espaço de diversão. Era um grande palco em que o país se mostrava para si mesmo. Quem passava por ruas com cheiro de flores para chegar até ali saía do fluxo medido do cotidiano e entrava em um sonho mais luminoso, mais curioso e mais coletivo. Quando o fim de tarde começava a esfriar, as mães ajeitavam a gola das crianças, os pais desaceleravam o passo, e o caminho feito em família parecia um pequeno cortejo de festa.
No rastro do tempo, as temporadas de feira foram momentos raros em que o desejo de modernização da vida urbana e os hábitos do bairro podiam ser vistos ao mesmo tempo. Nesses espaços valorizados por prefeituras, associações comerciais e jornais locais, não havia apenas parque de diversões, mas também máquinas novas, máquinas de costura, rádios, tratores, peças de vidro, estandes de livros e produtos regionais. Por isso, a feira era não só o rosto de uma cidade voltado para fora, mas também um espelho de como seus moradores imaginavam o futuro. De um lado estava a sensação de modernidade sob lâmpadas brilhantes; do outro, os saquinhos de sementes nas mãos, os passeios em família ao entardecer e a medida cotidiana de dizer “vamos dar mais uma volta”. Enquanto o país entrava na vitrine, os modos do bairro caminhavam ao lado.
Os hábitos silenciosos que chegaram até hoje se acumularam exatamente nessa passagem. O costume de se arrumar no fim da tarde e sair não sem rumo, mas para aparecer junto e passear junto; a ideia de que olhar vitrines significava não só consumir, mas também compartilhar curiosidade; o hábito de primeiro ver uma novidade no meio da multidão e depois comentá-la demoradamente em casa; o gesto de segurar a mão das crianças sem lhes tirar o direito de se maravilhar; tudo isso pertence à herança delicada deixada pelas estações de feira. As ruas com cheiro de flores não são um enfeite vazio nessa lembrança. Muitas vezes o caminho até a feira passava por parques, muros de jardim e calçadas molhadas ao anoitecer. A densidade da cidade e o perfume do bairro caminhavam lado a lado, e a vida social se revelava justamente nessa travessia.
Outro motivo para essas temporadas permanecerem tão vivas está na combinação de som e luz. Os anúncios saindo dos alto-falantes, o rangido distante da roda-gigante, o som seco das garrafas de refrigerante sendo abertas, o movimento em volta da barraca de algodão-doce, a breve seriedade das famílias ao posar para uma foto, tudo parecia tão organizado quanto uma exposição e, ao mesmo tempo, tão familiar quanto uma noite de bairro. As pessoas não iam apenas para se divertir; iam também para medir em que lugar estavam dentro do movimento do tempo. Qual objeto parecia “novo”, qual brinquedo dava um ar mais “urbano”, qual música mantinha a multidão unida: o parque de feira era como um laboratório silencioso de tudo isso. Ao voltar para casa, podiam sobrar alguns bilhetes, um balão pequeno ou um folheto, mas o que realmente ficava era o modo educado de circular entre os outros.
Hoje o antigo esplendor dos parques de feira já recuou em muitas cidades, mas os hábitos que eles deixaram não desapareceram por completo. A vontade de passear nas praças no fim de semana, o costume de transformar a caminhada da família ao entardecer em uma pequena cerimônia, o impulso de visitar uma loja ou mostra nova não apenas para ver, mas para comentar, tudo isso continua um pouco daqueles dias. As temporadas de feira deixaram ao país mais do que luzes brilhantes. Deixaram também a delicadeza de olhar junto, caminhar junto e levar para a rua uma alegria medida. É por isso que as ruas com cheiro de flores ainda são lembradas. Passar por elas a caminho da feira era, na verdade, colocar em cena a elegância cotidiana de um país.
Nas Prateleiras Embaçadas da Memória, as Estações em que os Parques de Feira Se Tornavam a Vitrine do País: Que Hábitos Silenciosos as Ruas Com Cheiro de Flores Deixaram Para Hoje?

Eski Pano