Houve um tempo em que ligar um boombox não significava simplesmente colocar um som de fundo com um toque. Era uma cerimônia feita de preparo, atenção e um pouco de sorte. O aparelho era levado para perto da janela, a antena telescópica era erguida devagar e então começavam os ajustes finos até que a emissora saísse limpa do meio do chiado. Às vezes uma criança ficava ao lado do aparelho, outra segurava a antena, e alguém dizia “agora ficou bom, volta um pouco”. A música que se tornava nítida por meio desses pequenos gestos nunca parecia apenas um êxito técnico. Parecia que um som vindo de longe tinha sido recebido em casa com esforço e com orgulho. A esperança se tornava mais clara no mesmo instante em que o sinal se firmava.
Do ponto de vista do patrimônio tecnológico, o boombox era um dos raros aparelhos analógicos capazes de reunir pessoas à sua volta mesmo sendo portátil. O mecanismo da fita cassete, a sintonia da frequência, o volume generoso dos dois alto-falantes e a escolha entre pilha e tomada faziam dele algo mais do que um simples instrumento de escuta. Ele representava a sensação de liberdade que uma época construiu através do som. Podia ser levado de um cômodo a outro, colocado na varanda, usado na casa de veraneio ou levado a um piquenique para se tornar o centro da atenção. Mas toda essa liberdade exigia esforço: encontrar a frequência, suportar o chiado, apertar o botão de gravação no instante certo, capturar a música querida na fita. Havia uma relação de atenção mútua entre tecnologia e usuário que hoje quase não existe.
É por isso que usar um boombox parecia uma cerimônia em si. A resposta não está só no visual do aparelho, mas nos comportamentos coletivos que se formavam ao redor dele. Quando uma música nova era finalmente capturada, todos na sala ficavam em silêncio, curiosos para saber se o locutor entraria no meio, e se havia fita colocada alguém perguntava se a gravação já tinha começado. A antena era girada para um lado, depois para o outro, aproximada da grade da janela, e às vezes bastava levantar o aparelho alguns centímetros para o som mudar. Para as crianças, era o lado mágico da tecnologia; para os adultos, a velha ponte entre paciência e recompensa. Ouvir uma canção chegar limpa podia parecer a menor e mais verdadeira vitória do dia. O esforço de alcançar esse momento também ficava gravado na memória.
Os detalhes do cotidiano tornam essa sensação ainda mais visível. O ruído de fundo do rádio numa noite de verão com a porta da varanda aberta, o tom cansado que denunciava pilhas fracas, a segurança mecânica quando a fita começava a girar, tudo fazia parte da mesma experiência. As músicas novas eram conhecidas assim, a narração do jogo era perseguida assim, os programas de fim de semana eram esperados assim. Em algumas casas o boombox ficava ao lado da cristaleira; em outras, acompanhava o preparo da comida na cozinha. Depois de algum tempo, ele já não tocava apenas música. Passava a organizar o tempo da casa. Sabia-se em que hora o locutor favorito falaria, quando certo programa começaria e qual emissora chegava mais limpa.
A ideia de uma esperança que fica mais nítida a cada giro na antena também explica o lado afetivo desse aparelho. Na era do boombox, o som nunca vinha totalmente pronto. Era preciso se aproximar dele, procurá-lo, conquistá-lo um pouco. Essa busca impedia uma escuta passiva. Às vezes a frequência escapava, às vezes o prédio vizinho atrapalhava o sinal, e às vezes era preciso confiar na memória para encontrar a mesma estação de novo. Justamente por isso, o som encontrado parecia mais valioso. Hoje as opções infinitas aparecem com alguns toques, mas naquele tempo ouvir uma música sem ruído era uma conquista técnica e emocional. Esse era o centro da cerimônia do boombox: não apenas o som, mas o gesto de se voltar juntos para ele.
No fim, a razão de o boombox ter parecido uma cerimônia está na medida da própria vida analógica. Com sua antena, sua fita, seu chiado e seu som subitamente limpo, ele oferecia não só música, mas também o hábito de esperar, ajustar e se alegrar em conjunto. A esperança ganhava forma a cada giro da antena, e quando a canção se instalava no meio do cômodo parecia que uma pequena vitória tinha sido conquistada. Por isso o boombox era mais do que uma máquina de som. Era um dos instrumentos mais vivos do ritual de escuta de toda uma geração.
Por que Usar um Boombox, Acompanhado Pela Esperança que Ficava Mais Nítida a Cada Giro na Antena, Era uma Cerimônia em Si?

Eski Pano