Nas casas antigas, algumas tecnologias são lembradas não apenas pelo que faziam, mas pelo conjunto de gestos que criavam ao redor de si. O flash de cubo fotográfico era uma delas. Quando a família se reunia na sala e alguém pegava a câmera, essa pessoa deixava de ser apenas quem tirava a foto. Virava a condutora de um pequeno ritual. A cortina era ajustada, buscava-se o melhor canto, arrumava-se a roupa das crianças, o pai abotoava o paletó e um fio de cabelo da mãe era colocado para trás. Ninguém falava alto, mas todos esperavam a mesma coisa. O clarão curto e preciso do flash marcava o ápice dessa preparação silenciosa.
Do ponto de vista do patrimônio tecnológico, o flash de cubo foi um detalhe decisivo da cultura fotográfica doméstica. Ao contrário da facilidade digital de hoje, que permite inúmeras tentativas, cada quadro naquele tempo tinha valor. O filme era limitado, a luz exigia cuidado e uma foto malfeita não podia ser corrigida na hora. O cubo de flash e seus mecanismos giratórios davam, a cada disparo, uma pequena sensação física de funcionamento. A pessoa sentia a tecnologia trabalhar. Por isso, fotografar era mais do que registrar uma imagem. Era também assistir a uma pequena apresentação do aparelho.
É daí que vinha a excitação silenciosa das famílias reunidas na sala. Por alguns instantes, todos suspendiam seus movimentos comuns. Até a criança mais inquieta sentia a seriedade do “não mexe”. Os adultos, por sua vez, tentavam encontrar no rosto a expressão que consideravam mais adequada. A toalhinha de renda, os objetos de vidro na cristaleira, o calendário na parede ou o enfeite em cima do rádio entravam no enquadramento de forma consciente ou involuntária. Assim, a fotografia guardava não só as pessoas, mas também a organização da sala, a estética da casa e o desejo da família de se apresentar. O clarão era também o instante em que a casa se mostrava ao futuro.
Outra razão para esse gesto parecer cerimonial estava na distância entre o disparo e o resultado. A imagem não aparecia imediatamente. Até o filme ser revelado, tudo dependia da memória. Perguntas como se alguém saiu de olhos fechados, se a luz ficou forte demais ou se a criança se mexeu outra vez podiam permanecer dias em conversa. Essa incerteza tirava a fotografia do campo do simples registro e a transformava num acontecimento familiar cercado de expectativa. Quando o álbum era aberto mais tarde, as arrumações feitas antes do flash pareciam voltar junto. A foto carregava não apenas o resultado, mas a atenção coletiva que veio antes dele.
Os detalhes do cotidiano tornam a cena ainda mais viva. O cuidado ao encaixar o cubo na câmera, o leve cheiro de plástico aquecido depois do disparo, as crianças piscando e a avó perguntando se tinha dado certo faziam da tecnologia doméstica um momento compartilhado. Às vezes o primeiro quadro era reservado para visitas, às vezes a foto era feita com roupa de festa, e às vezes fazia questão de entrar na imagem um sofá novo ou um tapete recém-pendurado. A câmera se tornava, assim, não só um aparelho, mas parceira da memória, do cuidado e até da apresentação da casa.
No fim, usar o flash de cubo fotográfico em meio à excitação silenciosa das famílias reunidas na sala era um ritual por si só, porque tecnologia, disciplina familiar e desejo de lembrança se encontravam num único clarão. O que fica na memória não é apenas a luz. São também a arrumação antes do clique, a breve imobilidade no instante da foto e os rostos aparecendo dias depois no papel revelado. Talvez por isso, ao olhar um álbum de família antigo, a pessoa não veja somente uma imagem. Ela quase revive a preparação curta e séria que a sala precisou montar para que aquele retrato existisse.
Por que Usar um Flash de Cubo Fotográfico em Meio À Excitação Silenciosa das Famílias Reunidas na Sala Era um Ritual por Si Só?

Eski Pano