Houve um tempo em que certos pratos faziam mais do que matar a fome; eles organizavam em silêncio a ordem afetiva da casa. O pão com ovo do sahur era exatamente uma dessas receitas. O cheiro do pão dourando na frigideira se misturava ao silêncio sonolento da noite e oferecia a quem se reunia sob a luz da cozinha um consolo ao mesmo tempo prático e acolhedor. O mais interessante é que essa receita costuma sobreviver na memória não apenas pela mesa do sahur, mas também pela primeira colher que alcançava o prato na volta da escola. Numa mesma casa, o mesmo sabor podia adquirir sentidos diferentes em horários diferentes. A sonolência da madrugada e o alívio faminto do fim da tarde se encontravam no mesmo calor familiar em torno do pão com ovo.
Do ponto de vista da memória gustativa, o lugar especial desse prato está no equilíbrio entre a simplicidade dos ingredientes e a intensidade do afeto que ele carrega. O pão quase ficando amanhecido, os ovos batidos e levados à frigideira, o leite em algumas casas, os temperos em outras, uma pitada de salsinha em outra, tudo isso fazia a mesma receita básica soar com a voz particular de cada família. Por isso, pão com ovo nunca foi uma fórmula única e fixa, mas a soma de pequenas variações transmitidas dentro de casa. Numa família ele era cortado em fatias mais grossas, em outra as bordas eram douradas de propósito, em outra ainda vinha acompanhado de chá forte ou de rodelas de tomate. O sentimento de pertencimento presente em sua simplicidade vinha justamente dessa variedade.
As cenas da vida comum explicam melhor por que esse prato permaneceu tão vivo na lembrança. O som da mãe ou da avó colocando o pão na frigideira antes do sahur, a criança entrando na cozinha com os olhos ainda pesados de sono, o pai sendo o primeiro a alcançar o prato enquanto mexe o chá, e depois a mesma receita reaparecendo na volta da escola com o gesto de “vou preparar alguma coisa rapidinho”, tudo mostrava como a receita estava profundamente instalada na casa. Às vezes a criança se sentava à mesa antes mesmo de tirar o uniforme, às vezes comia em pé no balcão, às vezes os irmãos disputavam em silêncio o último pedaço. Nesse sentido, o pão com ovo não era apenas comida, mas um sabor de transição que amarrava a casa em diferentes horas do dia.
Outra razão para ocupar lugar especial entre as receitas de família era sua distância do exibicionismo. Ele não pertencia aos pratos raros de comemoração, mas aos dias repetidos. E justamente por isso se fixava mais fundo na memória. As pessoas costumam lembrar não das mesas mais grandiosas, mas dos pratos preparados depressa depois de um dia cansativo e oferecidos com carinho. O pão com ovo do sahur levava para a família tanto a elegância da economia quanto o saber de construir saciedade e calor com poucos ingredientes. Na antiga cultura da cozinha, o valor de não desperdiçar, de criar sabor com o que havia em casa e de montar rapidamente um prato comum para todos aparece com muita clareza nessa receita.
Hoje, quando se fala em pão com ovo, muita gente sente ao mesmo tempo uma lembrança da noite e uma lembrança do dia. Isso acontece porque a receita convoca a sensação de segurança ligada à casa, independentemente do horário. A primeira colher estendida, o primeiro pedaço rasgado, o cheiro subindo da frigideira e o vapor do chá se encontram na mesma recordação por causa disso. O que a mantém especial entre as receitas de família não é a exibição de uma grande habilidade culinária, mas a capacidade de reunir a família em momentos comuns. No sahur ou na volta da escola, essa receita faz sempre a mesma coisa: coloca o calor da casa no prato. E é exatamente por isso que certos sabores se tornam inesquecíveis.
O Pão Com Ovo do Sahur Lembrado Pela Primeira Colher que Alcançava o Prato na Volta da Escola: Por que Ocupa um Lugar Especial Entre as Receitas de Família?

Eski Pano