Houve um tempo em que os pentes de baquelite ficavam em silêncio sobre penteadeiras com espelho, dentro das gavetas do quarto ou em pequenas caixas deixadas ao lado da máquina de costura. Pareciam parte comum do uso cotidiano, mas pertenciam à ordem elegante dos preparativos da manhã, do arranjo do fim do dia e da disciplina da casa. O leve som de atrito ao passar pelos cabelos, a superfície brilhante em tons de âmbar escuro ou quase preto, o peso que se encaixava bem na mão e a linha regular de seus dentes carregavam, em miniatura, o senso estético de uma época. Muitas vezes as pessoas usavam esse pente sem notar. Mas era justamente nessa invisibilidade que o seu rastro crescia. Há objetos que contam o gosto de um tempo com mais clareza quando se misturam à vida comum.
Do ponto de vista das histórias dos objetos, o pente de baquelite é um bom exemplo de como função e estética se encontravam na vida doméstica do início da modernidade. A difusão de um material sintético como a baquelite mostra não apenas a mudança das técnicas de produção, mas também a transformação das expectativas em relação à linguagem visual dos objetos da casa. O pente deixava de ser apenas um instrumento para arrumar os cabelos. Podia ser exibido na vitrine, incluído no enxoval ou dado de presente. Alguns modelos tinham bordas arredondadas, outros traziam tons marmorizados, outros ainda pequenos detalhes entalhados. Essas escolhas discretas de forma levavam o gosto simples, porém cuidadoso, daquele período até os cantos mais comuns da casa.
O motivo de esse objeto ter deixado um rastro quase invisível na memória da casa e da cidade está no fato de ele participar dos momentos mais íntimos e repetidos da vida. A mão da mãe penteando depressa o cabelo da criança antes da escola, o pai ajeitando o penteado diante do espelho depois do barbear, a mulher arrumando o coque pela última vez antes da visita chegar, todos tocavam o mesmo tipo de objeto. Ao lado da caixa de pó, do frasco de colônia, do pequeno espelho e da toalhinha de renda, o pente de baquelite fazia parte de um ritual maior de preparo. Ninguém ficava olhando longamente para ele, mas ele completava em silêncio a sensação de ordem, cuidado e apresentação do ambiente, sustentando uma linha estética que alcançava toda a aparência da casa.
É aí também que ele começa a refletir o gosto de uma época. A preferência por objetos discretos, mas não desleixados, duráveis sem se tornarem grosseiros, úteis e ao mesmo tempo agradáveis aos olhos, se reunia na forma do pente de baquelite. Para as pessoas daquele período, a beleza não era procurada apenas nos grandes móveis da sala, mas também nos pequenos objetos tocados todos os dias. O espaçamento dos dentes, a forma da pega, o brilho suave que a superfície devolvia à luz, tudo isso fazia parte dessa sensibilidade. Por isso, o pente de baquelite pode ser visto como um exemplo democrático da elegância doméstica. O hábito de procurar beleza no que é cotidiano aparece nele com clareza.
Quando lembramos hoje do pente de baquelite, não pensamos apenas num antigo objeto de cuidado pessoal. Vem junto a lembrança de uma disciplina silenciosa, de uma cultura material e de um senso de ordem dentro da casa. O rastro que ele deixou é invisível porque foi construído não por grandes acontecimentos, mas por toques repetidos. E justamente por isso é duradouro. Aquele pequeno objeto brilhando em silêncio na gaveta fala da ideia de beleza de uma época não em voz alta, mas misturando-se à própria vida diária. Se o pente de baquelite continua inesquecível, não é por uma curiosidade seca pelas coisas antigas. É porque ele viveu dentro de cada dia sem desaparecer e, desse modo, ajudou a dar forma a cada dia.
O Pente de Baquelite e o Rastro que Deixou Sem Ser Percebido no Uso Cotidiano: Como Refletiu o Gosto de uma Época?

Eski Pano