Alguns objetos parecem ter sido feitos não para ficar expostos numa vitrine, mas para esperar em silêncio dentro de uma gaveta. O pente de baquelite pertence a essa categoria. À primeira vista, ele é discreto. Não parece brilhante como a prata nem delicado como a porcelana. Ainda assim, nas casas antigas, quando se abria a gaveta de cima de uma penteadeira com espelho, aquele pente escuro entre toalhas, grampos e pequenas caixas chamava a atenção imediatamente. Isso acontece porque esse objeto, quase invisível no uso diário, foi uma parte calma, porém duradoura, da vida doméstica por causa de sua textura, de seu peso e de sua superfície resistente ao tempo. Uma criança talvez nem soubesse o quanto ele era antigo, mas sentia ao segurá-lo que havia ali uma seriedade diferente da de outras coisas da casa.
No campo das histórias dos objetos, o pente de baquelite é um exemplo pequeno, mas forte, de como os primeiros materiais sintéticos entraram na vida cotidiana. Durante a primeira metade do século XX, a baquelite foi usada em muitas áreas, de pentes a fones de telefone, botões e carcaças de rádio, por causa de sua durabilidade e da facilidade de moldagem. No entanto, o efeito desse material num pente ia além da novidade técnica. O som um pouco firme ao passar pelo cabelo, a sensação sólida na mão e o fato de não entortar nem quebrar facilmente faziam dele um instrumento confiável do cuidado diário. Por isso, em muitas casas ninguém o tratava como um bem especial. Ele simplesmente sempre esteve ali. Mas, com o passar dos anos e a multiplicação dos plásticos leves, a qualidade sóbria do pente de baquelite começou a aparecer mais claramente.
Deixar um rastro sem ser notado no uso cotidiano é justamente isso. A criança que penteava o cabelo às pressas antes da escola, a mãe que arrumava o coque diante do espelho depois do banho, o pai que ajeitava o cabelo após fazer a barba, todos mantinham contatos breves, porém repetidos, com o mesmo objeto. O pente quase nunca estava no centro da história, mas a maior parte das histórias acontecia no ambiente em que ele estava presente. Por isso não é coincidência que ele brilhe tão depressa aos olhos dos apaixonados por nostalgia. Quando alguém vê num mercado antigo ou numa banca de antiguidades um pente de baquelite castanho-escuro, âmbar ou quase preto, não se lembra apenas do desenho. Lembra também o vapor do espelho do banheiro, a pressa da manhã, os preparativos para uma festa ou a calma do fim da tarde em que se faziam tranças. É aí que mora a verdadeira força do objeto.
O valor estético do pente de baquelite também reforça sua permanência na memória. Enquanto os objetos produzidos em massa hoje muitas vezes transmitem leveza e descarte, a baquelite parece mais densa e mais marcada por personalidade. O brilho envelhecido de sua superfície, o alinhamento dos dentes e as formas com cabo ou mais longas mostram como o antigo desenho unia função e elegância. Além disso, esse objeto ganhou sentido não como peça luxuosa de coleção, mas dentro da própria vida cotidiana. Ele fazia parte daquelas coisas consertadas, usadas por anos e passadas de uma gaveta para outra. Isso lhe deu não só resistência material, mas também resistência afetiva. O motivo pelo qual uma pessoa nostálgica para diante dele numa vitrine não é apenas sua idade. É o fato de ele ter sido usado, tocado e completamente misturado à vida.
Por que, então, o pente de baquelite brilha tão rápido hoje? Parte da resposta está no modo como o passado guarda suas grandes memórias em objetos pequenos. A pessoa não recorda uma época apenas por grandes acontecimentos, mas pelas coisas comuns que segurava todos os dias. O pente de baquelite representa justamente o valor escondido nessa aparente banalidade. É um rastro deixado sem anúncio, um objeto que ficava ao lado do espelho ou esquecido na gaveta, mas que anos depois é capaz de devolver o ritmo inteiro de uma casa. Ele brilha aos olhos dos apaixonados por nostalgia não porque seja excessivamente adornado, mas porque torna visível outra vez a vida cotidiana já misturada ao tempo. Lembrando que os objetos silenciosos às vezes carregam a memória mais longa, o pente de baquelite continua vivo como uma das testemunhas mais modestas e mais eficazes da história dos objetos.
O Pente de Baquelite e o Rastro que Deixou Sem Ser Notado no Uso Cotidiano: Por que Ele Brilha Imediatamente Aos Olhos dos Apaixonados por Nostalgia?

Eski Pano